Esse texto é a transcrição editada do vídeo que abre a série. Sem roteiro, no improviso — do jeito que eu falo mesmo.
Cada vez mais gente destrói relação por recompensa
Sendo brutalmente honesto, como eu sempre sou: estão acontecendo alguns fenômenos muito interessantes na nossa sociedade. Quem me conhece sabe que a principal coisa que eu falo é sobre relações. E cada vez mais as pessoas estão dispostas a destruir relações para ter alguma recompensa, geralmente financeira. Ou acham que, para ter uma nova relação, para poder ir por esse caminho, tem que jogar uma arma nuclear no outro.
Eu mesmo, e você, a gente vive isso o tempo inteiro. Você apresenta várias pessoas, essas pessoas depois se juntam, criam um grupinho para elas e te excluem do grupo. Ou as pessoas tentam se aproximar de você para se aproveitar de alguma coisa que você tem — e quando conseguem aquilo, somem.
Isso é normal, sempre aconteceu e sempre vai acontecer. Mas tem uma coisa nesse fenômeno que está ficando mais complicada: antes as pessoas faziam isso por uma motivação própria. Agora elas estão sendo levadas a fazer isso, porque estão se envolvendo com coisas ou dando atenção a coisas que não deveriam.
O rótulo mata a neutralidade
Pare para pensar no que está acontecendo politicamente no Brasil. Quantas vezes você — ou alguém que você conhece — brigou dentro da própria casa, com os amigos, não fala com o vizinho, porque ele apoia um político, uma ideologia, um candidato que você não apoia?
Você começa a achar que aquela ideologia, aquele apoio, é a pessoa. Você coloca um rótulo nela. E quando a gente coloca um rótulo numa pessoa, a gente perde uma coisa chamada neutralidade.
Quando a gente tem uma certeza sobre alguma coisa, a gente está muito complicado. Porque pessoas não são certas. As pessoas realmente mudam. Não estou dizendo que uma pessoa muito má vai ficar muito boa — não é desse tipo de mudança que eu estou falando. Estou falando de mudança de contexto.
Conheço muita gente que apoiava um político, depois passou a apoiar outro, depois voltou a apoiar o primeiro. Por quê? A pessoa é má, é burra? Não. O contexto muda.
Agora: se a gente não sabe respeitar essa mudança de contexto, essas mudanças internas que as pessoas vão tendo, com quem a gente é capaz de se relacionar? Nosso ciclo de relações fica cada vez menor, porque a gente quer obrigar todo mundo a estar dentro do nosso contexto. E quando a gente precisa de alguma coisa, adivinha o que a gente não tem? O outro.
Networking ainda não é um relacionamento. Você conhecer as pessoas e elas te conhecerem é importante, sim, sem dúvida. Começa aí. Mas isso em si não tem valor nenhum se você não tiver uma relação.
A divisão sempre arruma um tema novo
Está tendo uma manipulação em massa na sociedade, no mundo inteiro, querendo dividir as pessoas. E cada vez mais está surgindo um tema novo para forçar isso.
Começou com religião. Depois veio o aspecto político — as pessoas começaram a se dividir porque acreditavam que, para o futuro, era melhor essa corrente do que aquela. Depois teve uma pandemia: quem era a favor de certas medidas, quem era contra. Depois teve até esporte fazendo essa divisão: se eu torço pra fulano tá errado, se eu torço pra ciclano tá certo. Agora estão colocando discussões sobre inteligência artificial — se é bom, se é ruim, se vai tirar empregos.
Cada vez mais está sendo incutido que, se a pessoa é contra uma ideia que você tem como certa, a pessoa está contra você. Ou seja: cada vez mais nós vamos ser menos tolerantes com quem pensa diferente.
“Apoiar o menos pior já tá bom”
Qual é a parte grave disso? Em alguns casos está certo — tem ideias que a gente realmente não pode apoiar, e a gente tem que ser contra elas. Não vou entrar nessa discussão. O problema é que a maioria dessas ideias foram colocadas. A gente recebeu elas de algum lugar que a gente nem sabe de onde, e acha que por algum motivo tem que defender.
Pensa bem: a gente entrou num ciclo em que apoiar o menos pior já tá bom. “Não, tudo menos isso.” “Vota em qualquer pessoa, menos em fulano.” Ou seja, eu estou instalando um drive mental em mim: se não for fulano, eu aceito qualquer coisa. Só que às vezes qualquer coisa é pior. Ou é a mesma coisa. Ou é uma manipulação do cara que você não quer, justamente pra você ir pra lá.
Ninguém nasceu pra ser militante
É isso que está acontecendo com a sociedade. A gente está sendo manipulado em massa. E isso está fazendo a gente sair do nosso lugar — onde a gente realmente é necessário, onde a gente realmente é importante.
Ninguém nasceu pra ser militante político. Ninguém nasceu pra defender ideias que estão na internet, pra discutir coisas que aconteceram no passado. Nós, individualmente, somos pequenos demais para levar a cabo uma discussão tão grande.
Só que, enquanto eu estou olhando para essas coisas, o que eu estou deixando de olhar? Se eu sou o cara que passa o dia militando na internet a favor ou contra a IA, onde é que eu estou no meu lugar de esposo? No meu lugar de filho? De irmão? De chefe? De profissional?
Quando a gente deixa essas ideias consumirem boa parte da nossa vida e boa parte da nossa mente, a gente começa a se perder de um propósito.
Profissionalmente eu vejo muito isso: as pessoas tendem a achar que a profissão que fazem é a luz da vida delas. Qualquer coisa contra a minha profissão é contra mim. Qualquer movimento pra tentar me tirar daqui é um movimento contra onde eu pertenço. E é normal — a gente faz qualquer coisa por pertencer.
Quantas das ideias que você defende são suas? E quantos desses terrorismos que te fizeram realmente aconteceram?
Cortina de fumaça, vício e a guerra contra a solidão
Como um bom marqueteiro, pra mim é muito transparente olhar isso. Quantas cortinas de fumaça vão colocando, uma em cima da outra, enquanto tem coisa acontecendo e destruindo famílias inteiras?
As primeiras coisas que sempre foram destrutivas pra família foram os vícios. E agora tem gente defendendo tanto a bandidagem quanto os vícios. Aí eu vejo gente dizer: “ah, mas e a loteria federal, que sempre teve aí?” Eu nunca vi ninguém roubar da família pra jogar na Mega-Sena, se viciar naquilo a ponto de ficar doente e precisar de tratamento. Você entende que são coisas diferentes?
“Ah, mas o governo apoia o álcool.” Pois é. Só que isso quer dizer que a gente tem que apoiar também? Quem me conhece sabe que eu adoro um bom vinho. E também sei que tem gente que precisa ficar longe de qualquer coisa que leve álcool.
Agora, você entende que só se consegue ter um vício onde está faltando uma coisa? É o isolamento que traz esse tipo de destruição. Pessoas que se sentem amadas e incluídas não precisam de um vício, porque todo vício só serve pra eu fugir da realidade.
Por que alguém vence no tigrinho? Primeiro, o jogo é divertidinho, tem aquela adrenalina de apostar. Segundo, ele acha que se ganhar muito dinheiro rapidamente vai poder mudar a realidade dele — sair do ponto A e ir pro ponto B por um atalho. É isso que a pirâmide faz. A pessoa cansou de ser humilhada, de ser desvalorizada. Ela acha que se entrar naquilo e ganhar muito dinheiro, vai dar um salto pra outro lugar e finalmente vão vê-la.
Mas tudo acaba no mesmo lugar. Tudo é uma guerra contra a solidão. Tudo é uma guerra pra eu poder ser alguma coisa.
Você não vai deixar de ser vazio porque o teu candidato ganhou a eleição. Você não vai deixar de ser vazio porque ganhou uma discussão, ou porque o que você disse que ia acontecer aconteceu. Você só vai deixar de ser vazio quando estiver no seu lugar.
Qual é o teu lugar?
Estar no seu lugar é estar presente. É estar aqui, no agora. Vendo o que eu realmente posso fazer agora, onde eu tenho que estar agora, onde eu sou importante agora.
Você já parou pra pensar o que você deveria estar fazendo agora? Em vez de ficar pulando reels, mandando meme pros amigos. Quem é meu amigo sabe: eu mando meme quase o dia todo, eu adoro fazer isso. Mas qual é o teu lugar?
Às vezes você trabalha numa empresa, ou tem uma empresa, mas não está presente lá. Está deixando as coisas no piloto automático, tipo aquele filme Click.
“Ah, Duda, mas o que eu tô fazendo tá funcionando, eu tô ganhando dinheiro.” Tá bom. Mas será que esse é o teu lugar?
Quando enganar normalizou
Porque tem outra coisa acontecendo, principalmente no mercado em que eu trabalho: parece que enganar os outros normalizou. Tá tudo bem vender um produto que não funciona. Tá tudo bem vender uma cápsula de farinha pra quem tem diabetes. Tá tudo bem enganar quem está com Parkinson, quem está com Alzheimer — que nem vai lembrar que eu enganei, né?
Será que tá tudo bem mesmo? Será que isso não tem uma consequência? Será que não tem alguém maior olhando pra gente? Será que essas coisas que acontecem com as pessoas que eu amo e com a minha família não são consequência disso?
Tem coisa que o dinheiro não vai nos salvar. Sempre que a gente faz algo assim, a consequência vem de um tamanho que a gente não tem tamanho pra lidar.
Falo por experiência própria, porque eu já fiz muita besteira na minha vida. Eu não fali sete vezes à toa. Tudo que aconteceu comigo não foi à toa — foi consequência.
O vizinho ou o político?
Uma boa reflexão: qual é o teu lugar? Onde você deveria estar agora? O que você deveria estar fazendo agora e não está?
Será que você já fez a sua função de filho hoje? Sua função de irmão, de amigo, de profissional? Será que você já fez a sua função com você mesmo, na sua saúde? Ou todo o teu cérebro, toda a tua capacidade, está preocupada com o time de futebol, com o político, com a IA, com o que vai acontecer amanhã, com os boletos da semana que vem?
Tudo isso é importante. A gente vive numa sociedade, a gente tem que estar por dentro das coisas. Mas existe uma ordem — e as pessoas estão saindo do lugar delas.
Pensa bem: você briga com todos os seus vizinhos por causa de política. Mas quando alguém passar mal na tua casa e você tiver que gritar por socorro, quem é mais fácil te ajudar? O vizinho, ou o teu político vai ouvir lá de Brasília?
E outra: quem ganha com essa divisão? Já parou pra pensar como seria se o bairro inteiro fosse organizado, um defendendo o outro — não existia crime. Uma empresa onde todo mundo está presente, olhando pro lado que tem que olhar: o cliente é bem atendido, as falhas não acontecem, as coisas simplesmente andam. Uma família onde todo mundo está unido não tem divisão.
O que eu vi sobre suicídio
O que eu mais vi, em coisas que atendi no meu trabalho de terapeuta nas horas vagas, é gente que se suicidou — e a galera fala: “nossa, eu falei com ele ontem, ele estava tão bem, eu nem percebi.”
Pra que lado será que eu estava olhando, que eu não vi que a pessoa estava sofrendo daquele jeito? Porque você não estava no seu lugar. Seja de amigo, de irmão, de colega. Você estava olhando para outra coisa.
O que vem por aí
Pra começar essa série, eu vou comentar atualidades e vou tentar criar alguns quadros. Vou falar de cognição, de negócios, de marketing, de empresas. Vou falar do que eu vivo — que é o que eu sei fazer, e faço muito bem nessa parte.
A discussão que eu deixo pra você: pra onde você está olhando, e quem mandou você olhar pra lá?
Nossa vida é muito simples, ela é muito completa quando eu estou onde eu tenho que estar. Quando eu não estou lutando com a realidade, quando eu não estou querendo que ela fosse diferente. É só quando eu não quero enfrentar o que eu tenho que enfrentar que essas coisas acontecem.
E não estou dizendo isso porque eu não saio do meu lugar. Eu também saio. De vez em quando eu também piso no tomate. Então acho que esses vídeos vão ajudar vocês, mas vão me ajudar também — pra eu relembrar alguns conceitos que eu tenho que lembrar todo dia, senão também acabo errando.
Comenta o que você quer que eu fale nos próximos. Conforme eu for vendo a coisa engrenar, pode ter certeza que vou fazer mais conteúdo desse.
— Marcos Duda